No dia 31 de janeiro de 2008, a UEFA informou que o estádio da final da Champions League de 2010 seria o Santiago Bernabéu.
O Real Madrid, dono do estádio, foi eliminado nas oitavas de final para o Lyon. O Barcelona avançou e avançou; e está na disputa da semifinal no campeonato diante dos franceses. Com um elenco muito bem montado pelo técnico Josep Guardiola, a equipe catalã é uma das favoritas ao título da competição – ainda mais sendo a atual campeã da Liga.
Para disputar o troféu, primeiramente, é necessário chegar à final. E a final será no estádio do grande rival espanhol.
A pergunta: seria um “desfavorecimento” decidir a Champions League na casa do vizinho? Não.
Em 54 edições do torneio, já aconteceram 4 confrontos em estádios rivais. Vamos relembrar:
Temporada 1955/56 – Real Madrid 4 x 3 Stade de Reims – em 13 de junho de 1956 no Parc des Princes, em Paris
Hector Rial (de olhos cobertos com a mão) foi o homem do jogo na final contra o Reims
E logo foi ocorrido na primeira final da Champions League. O Stade de Reims, clube que hoje atua na 3ª divisão francesa, foi o campeão nacional de 1955. Batalhava com o Lille, Sochaux, Bordeaux e Toulouse pela supremacia na França.
O time viajou cerca de 140 km para enfrentar o Real Madrid no estádio do Paris Saint-Germain, que só elevaria seu nome nacionalmente em 1959 com o nome de FC Paris e, depois de um hiatus, nos anos 80 já com a alcunha de PSG.
No Parc des Princes, o Reims equiparou seu futebol ao do bicampeão espanhol. O meia Glowacki começou a jogada que resultou em gol de Leblond, aos 6 minutos do primeiro tempo. Hidalgo e Glowacki davam trabalho a retaguarda do Real Madrid e, quatro minutos mais tarde, René Bliard achou Templin na área. A estrela do time dividiu com o goleiro Alonso e conseguiu marcar o gol.
O Real Madrid não se abateu e foi ao ataque, com Gento. A bola, porém, passou longe da meta de Jacquet. Mas quando foi a vez do capitão Muñoz carregar a bola pelo meio e passar para di Stéfano, que entrou como um foguete dentro da área francesa, os avôs galácticos diminuíram. E igualou, após cobrança de escanteio, com o atacante Héctor Rial.
No segundo tempo, o Reims empatou com Hidalgo, que escorou o cruzamento da direita, jogando a bola no canto direito de Juan Alonso.
O zagueiro Marquitos empatou novamente o jogo com uma ajudinha da defesa francesa. Rial, faltando 11 minutos para o término da partida, fez o quarto gol do Real Madrid, o gol do primeiro título europeu do clube merengue.
Temporada 1971/72 – Ajax 2 x 0 Internazionale – em 31 de maio de 1972 no Stadion Feijenoord, em Roterdã.

Johan Cruyff, o gênio holandês, botou os italianos para dançar em Roterdã
O técnico Rinus Michels deixou um legado para o romeno Stefan Kovács, seu sucessor. O holandês assumiu o comando do Ajax em 1965, permancendo no cargo até 1971 (quando se mudou para Barcelona), e foi tetracampeão nacional e bicampeão da Copa da Holanda. Kovács tinha uma máquina poderosíssima em suas mãos e venceu a Champions League de 1971 sobre o Panathinaikos.
Um ano depois, o romeno levaria o todo-poderoso Ajax à outra final do campeonato europeu. Mas dessa vez seria diferente. Eram praticamente dois adversários: a Internazionale e o “De Kuip”, estádio do Feyenoord, time que sempre estava disputando títulos nacionais e foi campeão europeu em 1970.
Com um quase “Futebol Total”, o Ajax encurralou a Internazionale no casa do rival holandês. Mas o primeiro gol só saiu no segundo tempo de partida, aos 2 minutos. Haan avançou com a bola dominada e tentou virar o jogo para a direita. Frustalupi domina a bola com a perna esquerda, mas dá dois passos e perde para Swart, que estava na marcação. O holandês abriu com o lateral-ponta Suurbier, que cruzou. O zagueiro Bellugi se confunde com o goleiro Bordon, os dois batem cabeça e Cruyff aproveita para tocar para o gol vazio.
O atacante nerazzurri Sandro Mazzola, que já tinha marcado dois gols no torneio, foi sucinto: “Cruyff era extraordinário”.
O jogo, segundo Johan Cryuff:
- Estávamos confiantes. A Inter era muito forte e era um grande time composto por grandes jogadores, como o Mazzola. Mas tínhamos que confiar que nós éramos os melhores.
O zagueiro Facchetti suou para marcar o atacante-meio-campista. Ele e seu companheiro Bellugi, que erraria no segundo gol dos Godenzonen. Boninsegna fez falta boba na lateral direita. O capitão Kaizer cobrou e Cryuff, aproveitando o vacilo de Bellugi, que errou o tempo da bola, decretou o placar final da partida em Roterdã.
Temporada 1995/96 – Juventus 1 (4) x (2) 1 Ajax – em 22 de maio de 1996, no Olímpico de Roma.

Angelo Peruzzi pegou dois pênaltis e coloriu o Olímpico, da Roma, de preto e branco
A atual campeã italiana com Marcello Lippi teria a fênix Ajax na final em território “inimigo”. Sob comando de Louis Van Gaal, o Ajax tinha sido campeão europeu na temporada anterior e voltava a figurar entre os grandes do continente desde os tempos de Cruyff.
Dessa vez não existia a magia de Neeskens, Cryuff, Haan e Kóvacs, mas a juventude de Van der Sar, Kanu e Davids misturada a experiência de Danny Blind e Litmanen. Do outro lado do gramado, a Juventus não tão italiana com seu eficiente trio ofensivo: Del Piero, Ravanelli e o capitão Gianluca Vialli.
Com a bola nos pés, a Velha Senhora abria o velocista Del Piero pela esquerda e deixava Vialli dentro da área, com Ravanelli pela direita. A intensa movimentação ofensiva quase gerou o primeiro tento. Mariano Torricelli saiu da lateral-direita, carregando a bola pelo meio-campo. Ele arriscou do meio da rua e Van der Sar defendeu. Silooy tentou tirar a pelota da área, mas Ravanelli chegou antes e chutou para outra sensacional defesa do goleiro holandês.
Aos 12 minutos do primeiro tempo, Frank de Boer vacilou e lá estava Ravanelli com seus cabelos brancos. Ele aproveitou para tocar, quase sem ângulo e sem Van der Sar debaixo das traves, para o gol.
Aí a campeã resolveu acordar. Após escanteio cobrado, Peruzzi sai do gol para socar a bola. Ela sobra nos pés de Davids, que arrisca de fora da área. A pelota desvia em Nwankwo Kanu e o goleiro da Juventus cai no canto direito, praticando uma defesa à la Gordon Banks.
Enfim, o gol. Frank de Boer cobra falta pela direita, Peruzzi não segura e o finlandês Jari Litmanen, de dentro da pequena área, chuta forte para empatar o jogo.
E os pênaltis. Van der Sar acertou todos os cantos que as cobranças italianas foram executadas: Ferrara, Pessotto e Jugovic em sua direita, e Padovano em sua esquerda. Angelo Peruzzi pulou do lado certo em duas oportunidades e fez duas defesas. As defesas do título da Juventus.
Faltou sorte para o jovem goleiro holandês, à época. Mas, primeiramente, o Ajax pecou na vontade de converter os pênaltis.
Temporada 1996/97 – Borussia Dortmund 3 x 1 Juventus – em 28 de maio de 1997 no Olympiastadion, em Munique.

À direita, Paulo Sousa comemora seu segundo título da Champions League. Agora, com a vestimenta do Dortumund
Um ano se passara após o título no Olímpico de Roma sobre o surpreendente Ajax. E tudo mudou para a Juventus. Ou quase tudo.
O time de Turim foi campeão do Calcio, mas já sem o time que o consagrou na temporada passada. Gianluca Vialli trocou Turim por Londres e assinou com o Chelsea, Ravanelli foi para o Middlesbrough, Vierchowod se mudou para Milão e Paulo Sousa foi contratado pelo Borussia Dortmund. Um português de sorte. Bicampeão consecutivo da Europa.
O Borussia conseguiu sua classificação para a Champions após vencer a Bundesliga de 1995/96 sobre o poderoso Bayern de Munique de Lothar Matthäus, Sforza, Papin e Klinsmann.
O técnico Ottmar Hitzfeld, que anos depois entraria no Olympiastadion todo final de semana para comandar o Bayern de Munique, nem precisou do artilheiro do time no campeonato alemão, o meia Michael Zorc, entre os titulares na finalíssima.
Escalado com um líbero e dois alas, o Borussia, primeiramente, tentava frear aquele ataque juventino formado pelo italiano Vieri e pelo croata Alen Boksic. Lambert e Paulo Sousa revezariam na marcação do talentosíssimo francês Zidane, que acertara sua transferência para a Juventus naquela temporada.
O atacante Karl-Heinz Riedle marcou dois logo em sequência: um após o cruzamento do escocês Lambert e o outro em uma forte cabeçada após cobrança de escanteio. Ainda no primeiro tempo, a história do jogo poderia ter mudado caso a bola de Zidane tivesse entrado ao invés de bater na trave direita do gol defendido por Stefan Klos. Ou se o árbitro húngaro Sándor Puhl não tivesse marcado falta de Vieri – a bola bateu no braço do atacante – no lance que resultaria em gol da Juventus.
Alessandro Del Piero entrou no início do segundo tempo para colocar fogo na partida. Ele viu Vieri bater da entrada da área para a bola explodir no travessão, após desvio do goleiro Klos. Pouco tempo depois, Boksic faz tabela e invade a área. Stefan Reuter não consegue pará-lo e o croata faz o cruzamento para Del Piero diminuir o marcador, de letra.
Aí Hitzfeld contou com a sorte de um campeão. Ele sacou o apagado atacante suíço Chapuisat para a entrada de Lars Ricken, meio-campista. Um minuto depois de pisar no gramado, Paulo Sousa recuperou a bola e deu um lindo passe para a corrida do alemão. Ele viu Peruzzi adiantado e o encobriu.
Foi neste dia que o Olympiastadion vermelho-e-branco teve uma festa amarela e preta.
Após a retrospectiva temos, em suma, três campeões nos estádios de seus rivais e apenas a derrota do Reims. O Barcelona, se contar apenas esse aspecto, coloca uma mão na taça que os clubes mais desejam na Europa.



