
Com sete anos de idade, o pequeno Jean-Pierre Papin começou a treinar no Jeumont. Oito anos depois, no Trith Saint-Léger. Sob cuidados dos avós (seus pais se divorciaram), Papin se concentrou na bola. Foi o começo da promessa do futebol francês nascida em 5 de novembro de 1963.
Em 1981 veio o tão esperado primeiro contrato profissional. O Vichy, time que estava na Championnat National – a 3ª divisão francesa -, investiu naquele moleque mirrado. Uma temporada foi o suficiente para que chamasse a atenção de um clube de maior escalão: o Valenciennes – à época na 2ª divisão. Papin voltou para as proximidades da Bélgica para atuar no Valenciennes. Fez o seu debute pela equipe contra o Kanna e agradou torcida e comissão técnica. Ele fez 33 jogos e marcou 15 gols. Somando sua primeira temporada como profissional, Papin já contabilizava 25 gols com apenas 20 anos.
O começo da sua glória, porém, estava em outro país. E a única coisa que precisou fazer foi pular o muro. Em 1985, o Club Brugge lhe fez uma proposta. Os fãs do Blauw-Zwart estavam deveras exaltados por contar com Papin em seu time. O rápido atacante de um chute poderosíssimo de perna direita levariam o Club Brugge ao vice-campeonato belga daquele ano, perdendo no saldo de gols para o Anderlecht. O atacante foi o terceiro maior goleador daquela competição ao marcar 20 gols. Foi também na Bélgica que Papin marcou seus primeiros gols em competições internacionais.
Vice-campeão no ano anterior, o Brugge teve o direito de disputar a Uefa Cup na temporada 1985-86. Na primeira rodada, os belgas encararam o Boavista, quarto colocado no Campeonato Português. Após o placar agregado de 6 a 5, o Club Brugge foi eliminado na rodada seguinte para o Spartak Moscow. Foram quatro jogos e cinco gols do francês. Antes de sair do clube, Papin conquistou seu primeiro título. Ele levou o Brugge ao tetracampeonato da Copa da Bélgica ao derrotar o arquirrival e atual campeão Cercle Brugge K.S.V. por 3 a 0. Em um ano, o francês colocou seu nome no quadro de honra da equipe.
Em janeiro de 1986, foi convocado pelo técnico Henri Michel para um amistoso pré-Copa contra a Irlanda do Norte e foi titular ao lado do craque Michel Platini, da Juventus. Papin ia voltar a França para jogar no Olympique de Marseille, mas antes disso foi integrado ao plantel que iria disputar a Copa do Mundo de 1986, no México.

Primeiro jogo da Copa, segundo com a camisa dos Blues e Papin deixou sua marca. No dia 1º de junho, contra o Canadá, o francês marcou o gol da vitória em jogo válido pelo grupo C após passe de Luis Fernandez, do F.C. Paris. Depois de atuações abaixo das esperadas contra a União Soviética e Hungria (ele fora substituído nas duas partidas por Bruno Bellone, do Monaco, e Dominique Rocheteau, do Paris Saint-Germain, respectivamente), Papin ficou de fora das oitavas, quartas e semifinal. Contra a Bélgica, na disputa do terceiro lugar, voltou a figurar entre os 11 iniciais e marcou um dos quatro gols que coroou a seleção francesa com o bronze em Puebla.
Com a medalha no pescoço, pensamento apenas no Campeonato Francês. Em sua primeira temporada, bateu na trave no campeonato nacional e na Copa da França. O Olympique perdeu a competição para o Bordeaux por quatro pontos. E os Girondins, do técnico Aimé Jacquet, campeão mundial com a França em 1998, também venceram o O’M na decisão da Copa por 2 a 0. Mais um ano passou e nada de títulos nacionais com o time de Marseille. Ao menos, um recorde individual: com 19 gols, Papin foi o artilheiro do Francês na temporada 1987-88. A equipe, que terminou a competição nacional na sexta posição, disputava simultaneamente a Recopa Europeia – derrotada na semifinal para o Ajax de Johan Cruyff.
O ano de 1989 foi especial para o mago veloz. Com sua capacidade incomum de marcar gols, Papin foi novamente artilheiro do Campeonato Francês com 22 gols e, dessa vez, elevou o Olympique ao topo da França. Além do Nacional, o time de Marseille levantou a taça da Copa da França. Dos 11 gols marcados em dez jogos na competição, Papin, eleito o melhor jogador do país, fez três deles na final. Um magnífico hat-trick na vitória de 4 a 3 no Monaco. Essa foi a última Copa da França que o Marseille venceu.
Na temporada 1989-90, o Olympique foi novamente campeão francês e Papin marcou 30 gols no campeonato. Os olhos, porém, estavam concentrados na Liga dos Campeões. Na primeira rodada, uma vitória e um empate com o Brondby (ele marcou nos dois jogos). Contra o AEK Atenas aconteceu a mesma coisa. Ao bater o CSKA Sofia por 4 a 1 no placar agregado, o O’M chegou motivado à semifinal contra o Benfica. Na primeira partida, Papin marcou e o Olympique venceu por 2 a 1, no Vélodrome. Porém, em Portugal, vitória simples dos Encarnados e eliminação do campeão francês.
Entra ano, sai ano, Marseille é novamente campeão francês com o goleador francês no topo da tabela de artilharia, agora com 23 tentos. E lá foi novamente o principal time da França tentar a sorte na Champions League. Hat-trick na primeira partida contra o Dinamo Tirana, da Albânia. O atacante Eric Cantona, que tinha passado a temporada anterior emprestado ao Montpellier, também balançou a rede. Depois de um empate fora de casa, veio o Lech Poznań, atual campeão polaco. No estádio Miejski, vitória de 3 a 2 do time da casa. Na França, foi a vez do meio-campista Philippe Vercruysse fazer um hat-trick e ajudar na goleada de 6 a 1 para avançar às quartas com estilo. O adversário era o campeão europeu Milan. E o Marseille conseguiu o que queria: um empate no San Siro em 1 a 1, com gol de Papin. No Velódrome, o time francês vencia por 1 a 0 quando dois dos quatro refletores do estádio apagaram. O jogo foi reestabelecido em 15 minutos, mas o Milan se recusou a voltar a campo. A Uefa decretou que o Olympique venceu por 3 a 0. Apesar de ter o astro Mostovoi no time, o Spartak Moscow não teve chances na semifinal. Perdeu em casa por 3 a 1 e na França por 2 a 1. O Olympique chegou a tão aguardada final da Champions.
Em 29 de maio de 1991, no estádio San Nicola, em Bari, na Itália, o Red Star, que eliminou o badaladíssimo Bayern de Munique, era o adversário do O’M. O jogo não saiu de um empate sem gols no tempo normal. Nos pênaltis, os croatas não erraram. Manuel Amoros não converteu o primeiro pênalti e o Red Star levantou a taça europeia. Papin levou o Ballon D’or naquele ano e o prêmio de melhor jogador da França.
Frustrado ou não, o Olympique foi mais duas vezes campeão francês com e fez Papin novamente artilheiro do campeonato. O “pentaartilheiro” porém, não levantou a taça com o Olympique em sua última temporada pelo time francês.

Chegou com status de craque no Milan em 1992. Porém, devido a constantes lesões e problemas de adaptação, não conseguiu se firmar no time titular rossonero, campeão italiano naquele ano. Fez 29 partidas no ano e marcou 16 gols. Chegou novamente à final de uma Champions League e confrontou a sua ex-equipe, o Marseille. Entrou aos 10 minutos do segundo tempo, no lugar de Roberto Donadoni, e não conseguiu evitar a derrota de 1 a 0 e a perda de mais um título. No ano seguinte, o Milan foi pela 14ª vez campeão nacional. E Papin conseguiu sua tão esperada medalha de campeão europeu – os rossoneri derrotaram o Barcelona na final por 4 a 0.
O atacante se transferiu para o Bayern de Munique em 1994 para recuperar seu futebol. Conquistou a Uefa Cup de 1995/96 em cima do Bordeaux, mas com apenas 6 gols em 35 jogos (em duas temporadas), o francês foi liberado para voltar a sua terra natal.
No Bordeaux, Papin voltou a jogar um futebol competitivo, levou o time à quarta posição no Francês e marcou 16 gols no campeonato. Só naquele ano. Na temporada 1997/98, viu o mezzo a mezzo Guivarc’h no topo da artilharia do campeonato com 22 gols marcados. Ele, com seis tentos, conseguiu uma mera quinta colocação com o Bordeaux no fim da competição.
Em 1998, aos 35 anos, Jean-Pierre Papin encerrava oficialmente sua carreira no Guingamp, da 2ª divisão francesa. Ele tentou permanecer nos gramados por mais alguns anos no Saint-Pierre de la Réunion e US Cap-Ferret, quando se aposentou de vez em 2004, mesmo ano que entrou para a lista dos 125 maiores jogadores de futebol feita por Pelé.
O técnico Papin
Foi no Bassin d’Arcachon que tudo começou. Ficou na 5ª divisão da França por dois anos até assinar com o Strasbourg, então da 2ª divisão, em 2006. Com a terceira posição no campeonato, os Racing voltavam à elite do futebol francês, mas deixou o clube devido a conflitos internos.
Tentou a sorte no Lens e no Châteauroux, porém, não teve sucesso.
O retorno
No início de janeiro de 2010, Jean-Pierre revelou que iria retornar aos gramados. Aos 45 anos, Papin atuaria pelo time amador do Facture-Biganos Boïen, que disputa a Ligue D’Aquitaine, que equivale à 10ª divisão francesa. A decisão de retornar aos campos veio após um convite de Thierry Castets, treinador do clube e velho amigo e companheiro de profissão do atacante.
Na seleção
Michel Platini, Jean Tigana, Eric Cantona, Didier Deschamps. Franceses talentosíssimos da mesma geração de Papin e com história na seleção francesa. Artilheiro nos clubes que passou, principalmente no Olympique, Papin marcou 30 gols em 54 aparições nos Blues. Apesar disso, nunca rendeu tanto quanto era previsto e foi relegado a status de reserva, sendo preterido pelos treinadores Michel Platini, Gérard Houllier e Aimé Jacquet.
Jean-Pierre Papin
Nascimento: 5 de novembro de 1966, em Boulogne-sur-Mer
Posição: atacante
Altura: 1,76m
Clubes: Jeumont (1970/78), Trith Saint-Léger (1978/81), INF Vichy (1981/84), US Valenciennes (1984/85), Club Brugge (1985/86), Olympique Marseille (1986/92), Milan (1992/94), Bayern Münich (1994/96), Girondins de Bordeaux (1996/98), EA Guingamp (1998), Saint-Pierre de la Réunion (1999), US Cap-Ferret (2001/04)
Gols: 296 em 554 jogos
Seleção italiana: 54 jogos, 30 gols
Títulos: 1 Copa da Bélgica (1986), 1 Copa da França (1989), 4 Campeonato Francês (1989, 1990, 1991 e 1992), 1 Supercopa da Itália (1992), 2 Serie A (1993 e 1994), 1 Copa Kirin (1994), 1 Champions League (1994), 1 Uefa Cup (1996).



